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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Título:Ensaio sobre a Cegueira
Autor:José Saramago
Editora:Caminho
Páginas:310
ISBN: 972-21-1021-7

Sinopse: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos"

Opinião: Soube que existiu na Universidade de Lisboa uma Tese de Doutoramento com 20 páginas em tempos idos. Coisa pouca, é certo, de outros tempos, também, mas o que interessa, realmente, é o conteúdo dos acervos, daí que a sinopse seja apenas aquilo que leram.
Passemos, então, à opinião.

Existem na sabedoria popular alguns ditados que se adequam, como ginga, a este livro. Para quem já sabe mais ou menos a história deste romance, de certo que se lembrará do que o outro disse: "quem tem olhos em terra de cego, é rei". Quem é o outro? - perguntam vocês e eu. Acho que nunca ninguém saberá, a sabedoria popular é mesmo assim. No entanto, será que, neste ensaio, quem tem olhos é realmente rei? Vamos ver.

O mote deste livro é simplesmente fantástico. Pensamos sempre em doenças que nos afectam do interior para o exterior, sempre em algo bacteriológico, e por ai adiante. Agora, a cegueira como doença? Algo que alguém pode «apanhar»? Só de alguém que imaginou a Península Ibérica deslocar-se do «meio-dia» e ir ter com a América do Sul. Adiante...
Julgo, e porque isto é mesmo assim, que nós não podemos ler estas páginas simplesmente pela sua história. Não! De facto, a história - não me canso de dizer isto - é mesmo muito boa e interessante. A Civilização cega, o Homem fica reduzido, mas não com a cegueira que comummente nós "conhecemos". É uma cegueira branca, um "mar" branco, que, mesmo na escuridão mais profunda, mantém quem a tem numa luminosidade constante. Todavia, é neste mar de leite que o homem encontra, verdadeiramente, uma escuridão de espírito. Têm que ler para perceber isto.
Salvo erro, Joel Serrão (historiador já falecido) escreveu uma obra em que estudava o nascimento da iluminação na cidade de Lisboa. Ele diz, por outras palavras, que este pequeno factor fez com que a nossa visão do mundo se modificasse. Abriu-nos novos horizontes. Onde é que eu quero chegar?

Algo que é referenciado no Ensaio é o facto de que toda a nossa civilização se baseou nessa pequena/grande qualidade: a visão. Todo o mundo é construído tendo por base a visão (salvo, infelizmente, alguns casos). Ora, como é que o mundo, nos dias de hoje e com toda a sua complexidade, se adaptaria sem a visão? No livro, a resposta é dada, mas apenas parcialmente, pois no final...

De notar que a condição humana - e porque vocês já se devem ter apercebido - é algo que se encontra implícito no livro. Existe uma clara evolução das personagens, da sua interacção, inicialmente com um sentimento de esperança à espera que a cegueira «passe», passando, depois, e com o evoluir dos acontecimentos, a uma mudança de cenário, com as pessoas a adaptarem-se à sua nova condição de toupeiras, a andar, não debaixo da terra, mas, perdoem-me o excessivo, pelas paredes.
Sendo o cenário principal um manicómio abandonado, onde os primeiros cegos são postos de quarentena, Saramago oferece-nos, e bem, uma visão extraordinária desse mundo novo. É aqui que podemos ver o qual degradante nós podemos ser sem umas pequenas comodidades. Tão frágeis que nós somos...
De salientar que, no meio disto tudo, deste mar branco, há quem tenha visão. Uma mulher. A mulher do médico oftalmologista que ficou cego. Não me perguntem os nomes das personagens, pois Saramago fez bem em não as «etiquetar», são mais uns no meio de tantos. É a única que . É a única que as pessoas não conseguirem andar como deve ser, é a única que a imundice do manicómio e depois das ruas. Foi a única que viu o seu marido a fazer sexo com uma mulher de óculos pretos. É única que como as pessoas se desleixam (em todos os sentidos) quando mais ninguém está a ver. É a única que repara em tudo o que os outros não conseguem. Será que ela se como rei no meio dos cegos?

É neste sentido que este "romance" constitui a assumpção máxima de ensaio, porque o é verdadeiramente.

P.S. O filme, embora com algumas partes omitidas por motivos lógicos, está bastante fiel ao livro.

Classificação: Excelente (9/10)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Caim

Autor: José Saramago 
Editora: Caminho 
Páginas: 181 

Sinopse: Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim?
Se em O Evangelho Segundo Cristo José Saramago nos deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim regressa aos primeiros livros da Bíblia. Num itinerário heterodoxo, percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha pela mão dos principais protagonistas do Antigo Testamento, imprimindo ao texto o humor refinado que caracteriza a sua obra.  
Caim revela o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: a capacidade de fazer nova uma história que se conhece do princípio ao fim. Um relato irónico e mordaz no qual o leitor assiste a uma guerra secular, e de certa forma, involuntária, entre o criador e a sua criatura.

Opinião: Nunca tinha lido José Saramago e confesso que não foi propriamente a vontade de conhecer a sua Obra que me motivou; foi, antes, e como não podia deixar de ser, a monumental polémica que se gerou em torno do lançamento de Caim que me «aguçou o apetite». No entanto, não «devorei» propriamente o livro; aliás, demorei um bocadinho mais a lê-lo do que tinha previsto porque me pareceu por bem «saborear» cada metáfora, cada imagem e, especialmente, cada crítica (bem)humorada.

Não me converti por completo a JS só por ter lido uma das obras (e ainda por cima a que gerou mais polémica até agora), mas seguramente me aventurarei nas que tenho lá na estante em lista de espera (O Evangelho Segundo Jesus Cristo e A Jangada de Pedra). Assim, Caim acabou por ter o efeito imediato de me aproximar a um autor que me tinha passado completamente despercebido até agora.
Embora o «caso» que se criou em torno das declarações de JS tenha estimulado o meu interesse pelo livro, quero sublinhar que não parti para esta leitura com ideias pré-concebidas ou com qualquer tipo de desconfiança, e muitos menos fui condicionada pelo facto de ter como base um episódio bíblico (que, por mera casualidade geográfica no que ao meu nascimento diz respeito, é parte integrante da tradição judaico-cristã em que me culturalmente me insiro).

Não é a mim que compete fazer a análise da obra de Saramago, função para a qual nem sequer estou habilitada. Como simples leitora, só posso fazer o que sempre me proponho: partilhar com quem me visita as minhas impressões sobre os livros que li. E Caim é para ser lido pelo livro que é - é um romance, uma ficção, uma boa história, mas apenas isso, pois nunca em momento algum senti que o autor tivesse o objectivo de «esmiuçar» criticamente o Antigo Testamento. O leitor nem sequer deve considerar que o Deus de JS é o «seu» Deus, pois , em última análise, cada um de nós encara a fé e a religião à sua maneira.
Digo isto porque não me parece que um homem que se deu ao trabalho de escrever um livro como este seja ateu.

Diz o ditado que "só se sente quem é filho de boa gente" e só se mostra tão ofendido quem dá importância. A revolta de JS, reflectida na postura de Caim, que mata Abel por não poder matar Deus, não é de quem é indiferente; é (e foi o que me pareceu) um desabafo de quem se desencantou e ao querer «ferir» com palavras duras a divindade o autor acabou por torna-la mais humana do que nunca. Este Deus de Saramago é cruel, falso, rancoroso, ganancioso, vingativo e impaciente, pois acaba por partilhar com os Homens os seus maiores defeitos.

Ao acompanhar as deambulações de Caim, condenado a uma vida errática e desprendida, o leitor é confrontado com diversos episódios do Antigo Testamento, que Saramago ficcionou. Viajamos até ao Monte Sinai, a Jericó, às Terras de Nod e até vislumbramos a Torre de Babel e nos podemos perder, logo de início, no Jardim do Éden. No entanto, sabemos que não passa disso mesmo, de uma viagem proporcionada por um intelectual dotado de uma grande imaginação (e de um humor absolutamente soberbo), não fosse o próprio admitir que o relato não tem nada de histórico.

Aqui ficam alguns dos trechos de que mais gostei:
"Há quem afirme que foi na cabeça dele [de Set] que nasceu a ideia de criar uma religião, mas desses delicados assuntos já nos ocupámos avonde no passado, com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo final quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas".
"E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é".
"Se o senhor não se fia das pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se do senhor".
Caim não é uma obra-prima, mas é «divinal» e anda lá muito perto.
Classificação: Excelente (9/10)

Devido ao gigantesco «circo» que se montou em torno desta obra, aqui ficam os links para outras críticas que fui encontrando:
N Livros

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Richard Zimler reage aos comentários de José Saramago


A polémica em torno das declarações de José Saramago a propósito do novo livro Caim ganhou uma dimensão que nem o próprio esperava.
A propósito deste tema, vale a pena ler a opinião de Richard Zimler, que me pareceu ser uma análise lúcida acerca de um assunto que se tornou um autêntico absurdo, ou, nas palavras do próprio, uma tola controvérsia. 




O artigo, intitulado "Saramago e a insustentável leveza da ignorância" (uma alusão muito feliz, devo acrescentar, à conhecida obra de Kundera), e está disponível no Ípsilon. Aqui ficam algumas das passagens que considerei mais pertinentes:

"Considerei que no fundo não valia a pena dar importância aos comentários de Saramago, pela ingenuidade e infantilidade da interpretação literal que ele (juntamente com os fundamentalistas religiosos) faz das histórias do Antigo Testamento. Uma das mais importantes lições que retirei do estudo da história das religiões e da mitologia é que as narrativas mitológicas são - na sua maior parte - poesia e não prosa. A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão?"
"As palavras de Saramago pareceram-me ainda como o "much ado about nothing", o muito barulho para nada, com que soa qualquer coisa que nem remotamente é novidade. Há cerca de dois mil anos que os filósofos judeus vêm debatendo a brutalidade de Deus e da humanidade no Antigo Testamento, em tons bastante mais emocionados do que os usados no debate em causa."
"Custa-me compreender como é que alguém, ainda que vagamente familiarizado com a filosofia e a literatura ocidentais, pode acreditar que erguer-se em 2009 contra a crueldade contida no Antigo Testamento tem alguma coisa de novo ou de chocante. Ou sequer interessante."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A polémica em torno de Saramago vista pelo Inimigo Público


Nestas coisas do humor, cada um reage à sua maneira, razão pela qual me abstenho de comentários, porque às vezes só rir é mesmo o melhor «remédio» :) Inimigo Público



domingo, 18 de outubro de 2009

As contradições de Saramago?

Eu cá não sou de intrigas, mas havia mesmo necessidade?


Saramago, cujo estatuto (e, claro está, prémio Nobel) lhe permite [quase] tudo, considera que a sua interpretação da história de Caim e Abel (incluindo-se neste lote os leitores que subscrevem essa religião) não causará mossa na Igreja Católica. Justificação? Porque os católicos não lêem a Bíblia... Até aqui até percebo o argumento, embora não seja por se ler a Bíblia de uma ponta à outra que se é "mais católico" (em todos os sentidos).

Repito, não sou de intrigas, mas acrescentar que "a Bíblia é um manual de maus costumes" e que tem subjacente a imagem de um Deus cruel, invejoso e insuportável parece-me bastante ofensivo para essa Igreja Católica que (supostamente) não iria ficar incomodada.

Cada um acredita (ou não) no que quer e tem fé no que bem lhe aprouver. Que fique bem claro que não me mostro pessoalmente incomodada com as afirmações de Saramago. Acho é que não havia necessidade. Quer Saramago queira ou não, a Europa onde nasceu e que lhe deu oportunidade para dizer tudo o que lhe passa pela cabeça tem um estrato civilizacional profundamente cristão. Quanto a isso não há nada a fazer. O cristianismo (e todas as Igrejas que se foram instituído ao longo de séculos (sendo, claro está, a Católica a mais proeminente) deixou marcas profundas que ainda hoje subsistem - rituais, pensamentos mágicos, feriados, festas populares e muita História, quer se goste dela ou não. 
Não é por ser católica ou deixar de ser que me insurgi contra as afirmações de Saramago. Até concordo quando afirma que "Deus só existe na nossa cabeça". Só me confunde a guerra que compra contra a Igreja, quando, mais uma vez repito, não havia necessidade; ofende a quem sentir que tem razões para isso e perde os leitores mais crentes que até se podiam ter deixado iludir pela alusão a Caim no título do seu livro.