sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Leste do Paraíso

Autor: John Steinbeck 
Título original: East of Eden
Editora: Livros do Brasil
Páginas: c. 360 cada volume (2)

Tradução: João B. Viegas

Sinopse: A Leste do Paraíso (1952), relata, sob a forma de um grande «fresco histórico», a vida de várias gerações de duas famílias californianas, os Trask e os Hamilton, de 1860 a 1920. Nas palavras do próprio autor: «O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilíbrio, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal».

Opinião: Li este romance durante o Verão, mas nunca me pareceu tão indicado como nos tempos que correm recuperar uma obra que se inspira no conto bíblico de Caim e Abel para contar a saga de duas famílias da América dos séculos XIX e XX. 
Recuperando aqui a questão em torno dos clássicos e dos escritos premiados pela Academia Sueca, confesso que não era necessário que a Steinbeck fosse atribuído o Nobel (em 1962) para que se considerasse este livro uma «obra-prima».

As histórias das duas famílias, Trask e Hamilton, ficam irremediavelmente ligadas quando Adam Trask decide deixar o Connecticut para ir viver para o Vale de Salinas, que, na realidade, é a Califórnia de Steinbeck - diz-se, aliás, que esta história tinha como destinatários os seus filhos, para que lhes fosse transmitido com todos os detalhes as paisagens, os sons, os cheiros, as cores e a vida desse vale. De realçar que se hoje em dia é a agricultura que predomina na economia desta região, na época em que a história decorre é-nos apresentado um vale onde tudo estava por construir e onde a fertilidade da terra acabava por condicionar a vivência de quem a cultivava. As terras de Samuel Hamilton (o patriarca da família) eram das menos férteis que existiam naquela região, onde nem sempre existiam afloramentos de água. No entanto, não foi por isso que este imigrante irlandês deixou de constituir uma numerosa prole (9 filhos) e de lhes proporcionar a todos o melhor que a vida tinha para lhes dar. É, portanto, um exemplo de optimismo e perseverança, que contrasta com a postura de Adam Trask, cujas terras eram muito férteis, mas que nunca deram frutos ou flores, porque delas ninguém cuidava.

A amizade que Adam começa por desenvolver com Samuel, o patriarca da família Hamilton (inspirado no próprio avô do autor), parece, de início, carregada de desconfianças, em parte, devido às mágoas que carrega da sua vida passada, mas também à influência que tem sobre si a mulher, Kate, uma das personagens mais «negras» de que me consigo lembrar. No entanto, com o tempo, é também através de Samuel e da sua sabedoria que Adam se consegue reconciliar consigo mesmo e com as escolhas que fez.

Muito haveria a dizer sobre todas as personagens que habitam neste mundo que Steinbeck criou, mas analisa-las e explicar aqui os seus propósitos é uma crueldade para o potencial leitor.
Interessa mais referir aquele que é o tema que percorre todo o livro: a luta entre o bem e o mal. É neste ponto que se tocam as histórias das gerações da família Trask e a de Caim e Abel. A luta entre irmãos e a vontade de uns se sobreporem aos outros é comum nas duas gerações com que contactamos e os conflitos que Adam viveu com o seu irmão acabam também por existir entre os seus dois filhos, abandonados pela mãe, Kate, uma mulher fria e desprovida de sentimentos, que é, efectivamente, a personificação da maldade. O que acaba por tornar este livro profundamente humano é que nem a própria Kate é somente má; a complexidade que Steinbeck imprime nas suas personagens é tal que até relativamente a esta mulher é possível vislumbrar alguns laivos de uma bondade que foi aplacada por um instinto quase diabólico. 

Não há propriamente um final feliz. A história em si mesma, circular, poderia ter continuado a ser contada, perpetuando-se nas gerações vindouras. Mas existe uma mensagem muito clara, condensada na palavra hebraica Timshel, isto é, na oportunidade que os homens têm de escolher entre o bem e o mal e o que querem para si e para os que o rodeiam.

Para finalizar a questão em torno de Caim e Abel, deixo aqui este quadro que, embora em inglês, sintetiza as referências bíblicas e faz a correspondência entre acontecimentos do Génesis e dos que ocorreram com as duas gerações da família Trask (Caleb e Aron são os filhos de Adam):


Book of Genesis, Cain and Abel
East of Eden, Charles and Adam
East of Eden, Caleb and Aron
Cain is a "worker of the ground"; Abel is a "keeper of sheep" (Gen. 4:2, ESV).
Charles is a farmer who works diligently even after he inherits considerable wealth from his father, Cyrus.
Caleb invests in bean crops. Aron vies to become a priest (who are commonly compared with shepherds).
God rejects Cain's gift of crops in favor of Abel's lamb (Gen. 4:3, ESV).
Cyrus prefers the gift from his son Adam (a stray puppy he found) over the gift from his other son Charles (a hard-earned expensive knife).
Adam rejects his son Cal's money and would rather he lead a good life like Aron.
After rejection from God, Cain kills Abel (Gen. 4:8, ESV).
After being rejected by their father, Charles attacks Adam and beats him nearly to death.
After Adam rejects Caleb's money, Caleb informs Aron of their mother's brothel. Aron, distraught, enlists in the war and is killed in combat.
God put a mark on Cain to deter others from killing him (Gen. 4:15, ESV).
Charles receives a dark scar on his forehead while trying to move a boulder from his fields.
Caleb is described as having a more dark and sinister appearance than Aaron. Also noteworthy is the fact that Adam tells Caleb, "timshel," meaning "thou mayest." This implies Caleb may overcome his evil nature because of the "mark" put upon him by Adam.
Cain is the only one with progeny.
Charles is the only one with children, as it is speculated that the twins Aaron and Caleb are his.
Aaron dies in the war, and Caleb is the only one able to carry on and have children.
 Classificação: Obra-prima (10/10)

4 comentários:

Bárbara disse...

Ha! Joana, muito obrigada pelos esclarecimentos sobre o que é um pseudo-intelectual!
Beijos!

Thalita Prado disse...

Oi linda!! Estou seguindo seu blog!!

Adorei!! Super lindinho ele!!
Beijo!

JM disse...

De nada Bárbara =) Sempre às ordens para o que for preciso ****

Bárbara disse...

Tem um selo para você lá no meu blog está na mesma postagem de "Almanaque de Puns,Melecas e Coisas Nojentas" no finalzinho do post...
Passa lá! Beijos!